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“Guru” da criatividade indica o caminho para Porto Alegre se tornar um polo tecnológico – Gaúcha ZH

Especialista inglês participou 1º Tech Art Festival, na Capital

Michael Babb participou de evento em Porto Alegre no último sábado
Michael Babb participou de evento em Porto Alegre no último sábadoNatalia Pegorer / Divulgação

Uma das vozes expoentes do universo das startups na Europa, o inglês Michael Babb desembarcou em Porto Alegre no último sábado como estrela do 1º Tech Art Festival, evento que inaugurou a Fábrica do Futuro, novo espaço de inovação e criatividade no 4º Distrito da Capital. Em sua agenda, conversaria com referências locais em inovação, visitaria startups e analisaria potenciais alvos de investimentos na indústria criativa. 

Babb é vice-presidente do Grupo Keybox, mentor do MIT  e da Start Up Lisboa, e tem no portfólio serviços para marcas como PlayStation, Nike, XBox, MTV, BMW, Coca-Cola, Red Bull e Nokia. Apontando bom potencial para a Capital se destacar no universo de inovação, ele menciona, na entrevista a seguir, qual caminho Porto Alegre deve seguir para oferecer um ambiente produtivo adequado ao surgimento de novas startups e empresas inovadoras. 

Nos últimos anos, Porto Alegre tem feito esforços para gerar um ambiente propício ao desenvolvimento de startups, com espaços como o 4º Distrito e diversos parques tecnológicos. A cidade está no caminho certo?

Esta é minha primeira vez em Porto Alegre, então tenho muitas pesquisas para fazer e muitas pessoas boas para conhecer. O que posso dizer é que todas essas iniciativas são importantes para uma cidade ou região se tornar famosa por sua indústria criativa. É preciso lembrar que a formação de um cluster (conjunto de empresas do mesmo setor) tecnológico é uma estratégia de longo prazo, de 10 ou 15 anos, como no caso dos países nórdicos. Para atrair talentos, é preciso haver uma clara vantagem e um ecossistema dinâmico, com universidades, mídia, política e negócios andando para o mesmo lado.

Em quais exemplos Porto Alegre pode se inspirar?

Em Londres, David Cameron, então Primeiro Ministro do Reino Unido, reuniu um grupo de assessores importantes e inventou a marca Tech City (agora chamada Tech Nation). Lá, as fintechs (empresas financeiras calcadas em tecnologia) decolaram. A Tech City estava essencialmente relacionada a vistos rápidos para atrair talentos internacionais – antes do Brexit, é claro – e havia incentivos fiscais para investidores. Esses incentivos são tão importantes quanto o acesso a talentos, qualidade de vida, cultura e facilidade de mobilidade. Londres também teve a sorte de sediar as Olimpíadas em 2012 e houve um grande foco no legado pós-evento, especialmente no Parque Olímpico, onde trabalhei no lançamento do centro Plexal Innovation (um espaço de coworking para reunir pessoas inovadoras na capital inglesa).

O senhor costuma dizer que uma cidade precisa escolher quais indústrias criativas desenvolver. Como fazer esta escolha?

Essa é uma boa pergunta. Na minha opinião, isso demanda uma avaliação honesta do que sua cidade, região ou país são realmente bons. Em Portugal, este processo começou com um estudo macroeconômico para justificar a existência de uma agência, a Creative Industries, para ver quais setores tinham maior potencial de crescimento — software de arquitetura, design e educação — e depois mapear, criar redes e promover o cluster a nível nacional e internacional. Foi constatado que seria importante fazer conexões com outros setores, como o turismo de moda. A agência também investiu em infraestrutura e grandes eventos. Nossos investimentos na conversão de fábricas vazias em espaços de trabalho colaborativo tornaram Portugal muito atraente para o cenário tech, incluindo o caso da Web Summit, que adotou Lisboa como o seu lar permanente.

Apesar de ser reconhecido pela criatividade, o Brasil ainda tem poucas startups com projeção mundial. Em qual estágio está o país no mapa da inovação?

O Brasil é uma marca muito forte e possui um excelente patrimônio, que ajudará à medida que o cluster de inovação for internacionalizado. E sim, existem algumas histórias de sucesso que são importantes para alimentar a confiança dos empreendedores. Por acaso, conheci a equipe Decora (startup catarinense especializada em imagens virtuais para produtos de decoração, vendida por R$ 100 milhões para a americana CreativeDrive no ano passado) em Londres pouco antes de se tornarem unicórnios (empresas que despontam como valiosas entre as startups). Eles eram muito apaixonados pelo que estavam fazendo. Os fundadores de startups de sucesso e sua experiência são muito importantes para o desenvolvimento do ecossistema local.

Incentivos a investidores são tão importantes quanto o acesso a talentos, qualidade de vida, cultura e facilidade de mobilidade

MICHAEL BABB

Consultor em indústria criativa

No Brasil, dados mostram que 75% das startups não dão certo. Este número é alto, em termos mundiais? 

Talvez não seja tão importante se as startups falhem ou não. Provavelmente, 50% falham no Reino Unido e nos EUA. O que realmente importa é que os que sobrevivam mandem muito bem e impulsionam o mercado. Esta é a abordagem sugerida: espalhe o risco e espere que uma das suas “apostas” seja o próximo Google.

 Qual dica o senhor dá aos empreendedores para descobrirem o próximo “Google”? 

A verdadeira inovação vem de conectar o que ainda está desconectado em meio a este ambiente de tecnologia. A sugestão aos empreendedores é: utilize seus recursos exclusivos para encontrarem um caminho sustentável de negócio. Pense em coisas que outras cidades, regiões e países não têm. E procure oportunidades em outras cidades de escala semelhante que também queiram se tornar referências globais. Há força nos números.

Quais são as competências essenciais para quem pretende lançar uma startup?

Há muitos conselhos disponíveis para startups e isso é muito subjetivo, mas da minha perspectiva, a chave é ter um produto ou serviço que resolve um problema cotidiano para um público específico. E realmente amar o que você faz, para parafrasear Steve Jobs, o fundador da Apple. Em termos de habilidades reais, a capacidade de vender é inestimável e a capacidade de combinar tendências com inovação é essencial. Se eu tivesse que escolher um livro para recomendar aos empreendedores seria T-Shirts and Suits – A Guide to the Business, de David Parrish, que sempre indico aos meus alunos em Londres e Portugal.

A sugestão é: espalhe o risco e espere que uma das suas “apostas” seja o próximo Google!

MICHAEL BABB

Consultor em indústria criativa

Quais são as principais falhas dos empreendedores digitais e qual a importância de aprender com os erros e tentar novamente criar uma empresa?

As principais falhas que vejo são não fazer pesquisa suficiente para tentar reinventar algo que já existe. Às vezes há falta de missão também: o que você faz, como você faz e para quem? Essa sentença se torna a base para o seu negócio. É o passe para seu sucesso, caso um Warren Buffett (célebre investidor americano) puxe conversa com você em um evento. O fracasso é bom desde que você falhe cedo – mas por favor, não falhe em uma viagem espacial tripulada (risos). Sim, é importante voltar a subir depois de ser derrubado. Mas sabemos que fazer isso como uma equipe não é tão fácil quanto parece.

Quais setores o senhor vê mais potencial para atraírem investidores nos próximos anos?

O que eu fiz quando estive em Porto Alegre foi olhar de perto as indústrias tradicionais que estão indo bem e pensam em como aproveitar uma “camada” da 4ª Revolução Industrial, como blockchain, inteligência artificial, internet das coisas e robótica. Sempre que ouço menção à inovação no Brasil, ela está relacionada à tecnologia educacional. Eu acho que esse é um setor importante para se olhar.

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