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Lugar de inovação: é hora do Porto virar Alegre

Fábrica do Futuro, no Quarto Distrito: ambiente para a criatividade. Tadeu Vilani / Agencia RBS

Convenhamos: todos temos uma relação ambivalente com nossa cidade natal. Por um lado, trata-se do lugar associado a lembranças de infância e família. Por outro, em algum momento ela ficou pequena demais para você. Minha geração foi provavelmente a primeira em que a classe média teve a chance de viajar na juventude, conhecer diferentes culturas, amadurecer longe de tudo o que era familiar. E, em certo momento, decidir voltar – ou não. Pois é complicado voltar para algo que encolheu.

Por muitos anos, Porto Alegre vinha encolhendo. Um sentimento de abandono da cidade pelos órgãos públicos e mesmo por moradores era claro. Talentos indo embora, economia estagnada, ruas perigosas. Algo visível especialmente para quem volta e traz no olhar um misto de saudade e adaptação ao estrangeiro. Nas minhas muitas idas e vindas, pela primeira vez em 2019 deparo com algo diferente. Há quem tenha decidido não só ficar em Porto Alegre, mas agir para virar esse jogo.

Para quem é cientista, a vontade de transformar o futuro é parte do dia a dia. Me dê um problema; meu trabalho é pensar em uma solução. Acabou a fonte de combustível? Que tal fazer um novo – e que não polui? Vírus novo? Vamos entender e desenvolver medicamentos – e uma vacina. Da criatividade, da tecnologia e do conhecimento, abrigados em grande parte nas universidades, surge o que chamamos de inovação: novas soluções para velhos e novos problemas. No mundo inteiro, empresas se desenvolveram ao redor das universidades, entendendo que ali surgem os conhecimentos que geram desenvolvimento.

A academia, por sua vez, entendeu que essa cooperação é importante para colocar seus egressos e suas criações no mercado. O papel do governo seria simplesmente investir em ciência básica e educação e proporcionar um marco legal facilitando a troca entre startups e investidores quando chega esse momento. O fluxo, assim, deveria ser: ciência básica–ecossistemas de inovação–novas tecnologias–startups–capital de risco–transição para o mercado–mercado. Gerando emprego, renda, imposto, receita, investimento, que volta para ciência básica – e assim por diante. Esse é o motor do desenvolvimento na Sociedade do Conhecimento – em todo o mundo desenvolvido. A interação com a universidade permite ao investidor assegurar-se da legitimidade da invenção na qual ele aposta.

Esse fluxo organizado da Sociedade do Conhecimento parecia impossível de ver estabelecido em Porto Alegre. Mas, em meados de 2018, três universidades sediadas na Capital (PUCRS, UFRGS e Unisinos) criaram a Aliança para a Inovação, propondo ações de alto impacto para o avanço de inovação na cidade e o desenvolvimento da região. O mais importante de seus projetos é o Pacto Alegre, que quer criar condições para que a cidade se transforme em polo de inovação, atração de investimentos e empreendedorismo. A ideia é unir as forças locais, de todos os segmentos, em prol de uma agenda comum, que melhore a vida de todos.

Uma das novidades foi a adesão de empresários locais. Esses compreenderam que de nada adianta ter seu negócio em uma cidade na qual as pessoas não podem adquirir bens, não se sentem seguras para andar nas ruas e onde não querem criar seus filhos. Na era da globalização, é fundamental fortalecer e estimular os laços locais. A economia local como uma plataforma global. Pois a nova economia é tão veloz que só funciona de forma participativa. Negócios e empregos surgem e desaparecem rapidamente. Mudanças gigantescas acontecem em prazos curtos, e estar conectado localmente proporciona uma estabilidade para lidar com transformações globais. Mas, para isso, precisamos desapegar das noções antigas de onde buscar soluções – essas já não mais podem vir de um pequeno grupo de indivíduos, pois ninguém tem respostas sozinho.

 

Auditório da empresa de tecnologia de mobilidade UMov.Me, localizado na Rua Cristiano Fischer
UnMov.me / Divulgação

A coalizão de mentes criativas e empreendedoras atrai e incentiva outras. Do Pacto, ou junto com ele, surgiram iniciativas locais para lacunas de interação e conhecimento, visando retomar a vida da cidade. O projeto Dito Efeito, da empresa de tecnologia de mobilidade UMov.Me, localizado na Rua Cristiano Fisher, traz fóruns de debate sobre temas como tecnologia, histórias de vida, futuro do trabalho, educação, design.

Palestras ágeis no estilo TED reúnem pessoas em seu espaço e são transmitidas a diversos pontos e universidades do Estado, com a participação interativa do público. Alexandre Trevisan e Denise Pagnussatt, da UMov.Me, falam com carinho do projeto, que trouxe empresários, cientistas e intelectuais como curadores das palestras:

– As pessoas doam seu tempo para ensinar e melhor entender tantos novos desafios; aprendemos a trabalhar juntos, respeitar diferenças e conhecer o talento local.A UMov.Me faz gestão de atividades em campo de empresas, como telentregas. Por que um empresário deveria usar um aplicativo gerado aqui ao invés de algo que vem do Vale do Silício? Porque em Porto Alegre podemos fazer um tão bom quanto, ou mesmo melhor, e assim estimular a economia local.

Retomar a cidade faz parte desse movimento. A família de Francisco Hauck transformou a antiga fábrica de enfeites de Natal Wanda Hauck, na Rua Câncio Gomes, em um centro de fomento para inovação – batizado auspiciosamente de Fábrica do Futuro. A ideia é atrair para o novo espaço startups e empresas já estabelecidas em tecnologias de educação, realidade virtual e games. Um diferencial importante da Fábrica é a interação com a arte. Uma colaboração com o Museu de Arte Contemporânea do Estado decora o espaço expondo peças do acervo, familiarizando os visitantes com artistas locais. E a grande âncora do local é o Áudio Porto, estúdio montado com uma mistura de peças de equipamento raras garimpadas pelo mundo pelos irmãos Hauck, alojadas harmoniosamente em um projeto arquitetônico descolado, mas que insiste em buscar a perfeição técnica. Querem que os melhores artistas gravem no local. Quem visita o estúdio entende o porquê: ali, a tecnologia se casa com o amor pela arte, e as lembranças carinhosas do passado da família estimulam seu desejo por um futuro melhor para a cidade. A Fábrica está localizada no Quarto Distrito, área que antigamente era industrial, mas que já conta com um projeto de revitalização, cujo Master Plan foi desenvolvido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sob a coordenação do professor Benamy Turkienicz.

 

Espaço que seriará o Instituto Caldeira tem 12 mil metros quadrados. Júlio Cordeiro / Agencia RBS

A algumas quadras dali, próxima ao DC Navegantes, uma área de 12 mil metros quadrados ainda abriga a caldeira da antiga Indústria Têxtil A.J. Renner. O espaço sediará o Instituto Caldeira, mais uma iniciativa local para estimular o desenvolvimento de inovação em Porto Alegre, numa colaboração que inclui mais de 25 empresários, de algumas das empresas mais conhecidas do Estado, atuando como instituições fundadoras do projeto. 

As duas principais ideias do Caldeira são evitar a fuga de talentos da cidade e proporcionar um ambiente de apoio e transição para startups. Aquelas que nasceram em parques científicos e tecnológicos nas universidades, e já são grandes demais para estes, mas ainda pequenas para inserção no mercado. Esse é um passo importante para garantir o fluxo das ideias geradas e impedir o fracasso de uma empresa antes que ela esteja totalmente sólida para se manter.

Que empresas podem surgir aqui? – você pode perguntar. Não há escopo definido. Pode ser de gastronomia, de educação para arte e design, um aplicativo para pedir comida, cremes dermatológicos, algo na área de nutrição, exercícios, medicamentos antivirais. O talento sobra na cidade. As universidades vibram em ideias. Há capital de investimento. E, finalmente, as pessoas parecem estar despertando para isso. Talvez, em parte, pelo cenário desalentador que vemos em tantos outros lugares.

Esperemos que essa seja a forma de a Capital sacudir seu ranço conservador, abrir a casa após um inverno de ideias e enxergar um futuro animador para os moradores. Vamos conhecer e divulgar os talentos locais. Vamos investir em ciência, tecnologia, arte, cultura. Ninguém quer, de verdade, abandonar sua cidade para sempre. Em um momento em que tormentas de conservadorismo retrógrado atingem Washington e Brasília, nós podemos dar o exemplo e, juntos, oferecer um Porto, finalmente, mais Alegre.

Saiba mais

  • Os valores que norteiam as ações do Pacto Alegre são cooperação, inclusão, interesse de todos, compromisso, transparência, criatividade e empreendedorismo.

  • O Pacto é constituído por mais de 75 entidades, que representam governos municipal e estadual, empresas privadas, universidades, escolas e coletivos.

  • A metodologia envolve a definição consensuada de macrodesafios da cidade, sendo associados a cada um deles projetos executados e ações apoiadas pelo Pacto.

  • Há uma consultoria internacional, do professor Josep Piqué, que conduziu o processo de transformação de Barcelona em uma das cidades mais inovadoras do mundo.

  • Já a Fábrica do Futuro é um projeto que pretende transformar a zona norte da Capital em um polo tecnológico. Um espaço de 3 mil metros quadrados foi adaptado em uma antiga fábrica do Quarto Distrito para atrair startups de áreas como educação, sistemas audiovisuais, realidade virtual, Internet das Coisas e games. O espaço está funcionando desde março.

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Artigo publicado pelo jornal Zero Hora em 17.05.2019

Leia o original aqui.

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